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Às filhas nos anos 80, mães nos dias de hoje

Quando tu eras a filha, tinhas aulas de manhã ou de tarde, e no resto do tempo tinhas tempo para brincar, fazer os tpc, assistir ao início da RTP 2 para veres os desenhos animados importados da Europa, e mais um par de coisas… até os teus pais chegarem a casa.
Agora que és a mãe, os teus filhos têm aulas de manhã e de tarde, e ATL, e atividades extra-curriculares, e piano, e inglês ou mandarim (ou os 2)…. Até tu os conseguires levar para casa.

Quando tu eras a filha, bastava “aquele” olhar da tua mãe para tu voltares a fingir seres um anjinho.
Agora que és a mãe, já não consegues “só” olhar para os teus filhos, porque eles não vão ligar nenhuma. Tens de olhar, ameaçar, levantar a voz (assertivamente, defendes-te tu), negociar… para que os teus filhos finjam ser um anjinho.

Quando tu eras a filha, não tinhas confiança suficiente com os teus pais para lhes responder “à letra”, nem fazer perguntas incómodas… tudo por uma questão de respeito (ou medo de alguma mão mais pesada).
Agora que és a mãe, não ordenas nada aos teus filhos – quanto muito argumentas, justificas, imploras. E questionas-te onde está o respeito que tu tanto sentias pelos teus pais e que não consegues ver nas tuas crias.

Quando tu eras a filha, assistias a desenhos animados que eram uma autêntica chantagem emocional: era o Marco que tinha visto a mãe a partir, a Heidi que tinha ficado a viver numa montanha, isolada e sem notícias da mãe, a Candy Candy feita gata borralheira….  E mesmo inconscientemente tu imaginavas que, se o destino quisesse, tu poderias também ficar sem a tua mãe.
Agora que és a mãe, percebes que os teus filhos assistem a desenhos animados em que pura e simplesmente já não há qualquer referência à figura materna. É o caso do Jake e os Piratas da Terra do Nunca, ou os Caricas, ou a Casa do Mickey Mouse – tudo grupos de amigos, auto-suficientes, que não têm como temer a ausência da mãe – como?, se o que não existe não pode causar saudade?

Quando tu eras a filha, conhecias toda a vizinhança do prédio, da rua e do bairro – e eras naturalmente conhecida “como a filha de…” O que levava a que os teus pais tivessem uma série de cúmplices na tua educação e controle.
Agora que és a mãe, nem tu conheces a vizinha do lado!, quanto mais? Como é que podes confiar que a tua filha possa ter a chave de casa e brincar na rua com a amiguinha do prédio ao lado - cujos familiares tu conheces muito vagamente, e só se for em ambiente de reunião escolar?

Quando tu eras a filha, ansiavas pelo teu aniversário ou pelo Natal ou pela passagem de ano para ver se tinhas direito a uma prenda. E estava bom! Ah, também não era mau quando revias a tua madrinha ou quando visitavas os teus avós, com sorte recebias uma nota de 20 escudos à socapa… que tu guardavas religiosamente no mealheiro.
Agora que és a mãe, sentes-te pressionada pelos teus filhos e sociedade e vizinhos e outras mães para comprar prendas e gadgets e programas de fins-de-semana (como idas ao lanche no shopping + cinema + jantar) a torto e a direito. E ainda comemoras se, do plafond diário que tens para gastos com as crias, consegues uma poupança de 20 cêntimos… que tu guardas religiosamente (até à próxima vez).

Quando tu eras a filha, a tua mãe chamava-te a atenção para tu agires como uma senhorinha. E para respeitares os mais velhos, a professora, e ai de ti que pensasses sequer nalguma palavra feia, quanto mais dizê-la!
Agora que és a mãe, chamas a atenção da tua filha para, aos 8 anos, não agir tanto como uma senhorinha (unhas pintadas? Kit de maquilhagem para os anos??). E exiges aos outros que respeitem a tua filha (já o contrário…), e desculpas a sua má educação e prepotência pela possível hiperatividade… ou porque a criança "tem de mostrar a sua personalidade, é uma questão de liberdade" (eu dou-lhe a liberdade!).

Quando tu eras a filha, a tua mãe educava-te como sabia – e imaginava ser o melhor. E tu obedecias, e não ficavas traumatizada se levavas com algum berro, ou puxão de orelhas, ou fim-de-semana sem um bolo, ou uma palmada “no momento certo”. E ninguém ficava melindrado nem se abriam telejornais a falar dos traumas para a vida.
Agora que és a mãe, levas a toda a hora com manuais de instruções sobre como educar os teus filhos. Ou alimentá-los. Ou vesti-los. Ou “amá-los” (really??). E tu tentas obedecer, para que eles “não fiquem traumatizados” – ou não te apontem o dedo por, se daqui por uns anos algum dos agora miúdos fizer uma asneira, tal decisão não tiver sido fruto de um ou outro raspanete que te atreveste a dar-lhes, aos 4 anos, após a birra no supermercado devido a um qualquer Lego ou Nancy.


Mas independentemente de algumas "falhas" na educação que a tua mãe possa ter tido – e que tu possas ter, também.. Lembra-te: és a mãe. És quem testa neles os princípios que desejas que eles tenham e sigam. És quem abdica de alguns momentos em prol da sua existência. És quem mais sorri pela evolução dos teus infantes, e mais sofre por algum tropeço dado ao longo da vida. Por muitos defeitos que tenhas, és tu que vais servir de exemplo, de companhia, de ombro, de motivação. Por isso, aproveita o teu dia. Celebrado ontem, festejado sempre que recebes um mimo ou uma atenção dos teus filhos.

És, afinal, a razão de ser de todos nós, filhos. Um feliz dia para ti, mãe!

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48 comentários:

Cartuxa disse...

Adorei!! Parabéns e muito obrigada :)

Sara ProfissãoMãe disse...

Fantástico :)

Sandra Marques de Paiva disse...

Que texto fantástico. Ainda não sou mãe, mas fui filha nos anos 80 :)

Os Pitinhos disse...

Tão verdade!! Revejo-me completamente. Fui filha nessa altura e sou mãe de dois rapazes (19 e 11 anos). Muito menos complicado no "meu" tempo.
Marta

Angela Pinheiro disse...

nem mais nem menos, em cheio ;)

Paula Nogueira Guerra disse...

SIMPLESMENTE EXCELENTE!!!!

Eu..a V* disse...

Não me revejo em todos ... Mas um excelente texto!!

Maria Sarmento disse...

Gostei muito e revejo sim os momentos :)

Ana Ribeiro disse...

MUITO BOM! :)

Anónimo disse...

Concordo com a ideia mas uma pequena correção: a Heidi não esperava notícias da mãe. Quem a deixou na montanha com o avô foi uma tia que cuidou dela após ficar orfã. E era para a montanha que ela sonhava voltar.

Dina Povoa disse...

Clap / Clap / Clap

Cristina Fernandes disse...

Adorei,mesmo realista!

Cristina Fernandes disse...

Adorei,mesmo realista!

saltapocinhas disse...

adorei e, por isso, partilhei.

Dondoca disse...

Certissimo

Cozinha Caseira disse...

Parabéns pelo artigo. Está muito giro.

Mariana Vaz Velho disse...

Adorei, parabéns

BLEACH disse...

Parabéns!

Anónimo disse...

5 *

Anónimo disse...

Tudo verdade! Bons tempos! ObrigDa mae krida por tudo..

Unknown disse...

Mt bom ;)

TheGirlinTheLeatherJacket disse...

Acuso-me mãe que nasceu nos 80's. Encontro-me em muitos pontos do que descreves, quer quando era eu a filha, quer agora que sou mãe.

Teresa lucio disse...

Não concordo nada... Mais ao contrário. .. ;)

Da Cor das Cerejas disse...

Fui assim uma filha dos 80...mas não sou tudo isso agora que sou mãe. Parabéns pelo artigo, muito bem escrito.

Clara disse...

Muito bom mesmo 😊

Clara disse...

Muito bom mesmo 😊

Docealgodão disse...

Filha dos anos 80 e mãe de agora e sem duvida que concordo com tudo o que foi dito.
Parabéns pelo texto

SuperSónica disse...

Tão verdade...que lindo texto!

Landa disse...

Parabéns! Belo texto

Anónimo disse...

Seria bom se realmente pudéssemos afirmar que os filhos e filhas dos anos 80 são todos bem educados... infelizmente encontro diariamente muitos dessa geração que muito ficam a dever a essa educação tão certa(!) que era dada nos anos 80!
GI

mia disse...

Muito, mas muito bom!

Svetlana Gritsenko disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Svetlana Gritsenko disse...

Não concordo!

Vânia Inácio disse...

concordoooooooooooooo

melro azul disse...

não só gostei, muito, como recomendei! fantástico!
abraço do melro azul
http://maegazine.com/2015/05/30/coisas-giras/

Rubina Mara Freitas disse...

Claro e verdadeiro! Parabéns!!!!

Tanita disse...

Muito bom! Dá que pensar não? Eu sou mãe dos anos 80!

Unknown disse...

Tal e qual!

lena ramos disse...

gostei...mas nao concordo que dantes as crianças eram todas bem educadas...e agora são todas mal educadas..nao houve geração nenhuma, em que os adultos não dissessem ,que as crianças eram mal educadas..ja no tempo de socrates ( filosofo grego) se dizia o mesmo...e ainda bem que as coisas mudam...

Judite Amaral disse...

Excelente artigo! Sem internet nem milhares de outros gadgets, foi uma infância bem mais feliz e livre de correr e brincar na rua nas longas tardes de verão, sem traumas após fazer o exame da 4a. classe ou de outro ano...

Ana disse...

A escola era o dia todo. Das 9h às 18h

Cristina disse...

Pois :)
Já agora, a Heidi é orfã.

Unknown disse...

Lindo. É mesmo assim. Sou mãe e já fui filha nos anos 80.

Anónimo disse...

Simplesmente fantástico muito completo parabéns ao autor/a do texto.

MeRiaN disse...

Concordo ana. Das 8.30 as 5.30 no meu caso e depois seguiamos para a natacao ou tenis ate as 7.30. N varia muito de hoje em dia esse ponto.
Nasci em 1983

De resto talvez seja porque vivo longe de Portugal mas os meus filhos nao vêm nenhum desses cartoons, nem recebem presentes foram dos anos e natal.
Tem muitos bons pontos tambem o texto, parabens ao autor

Anabela Melo disse...

Tão verdade, tão real!!!
Parabéns, excelente artigo.

Anabela Melo disse...

Tão verdade, tão real!!!
Parabéns pelo excelente artigo.

Anónimo disse...

Simplesmente magnífico e que autorretrato! Muito obrigada.
Encaixo na perfeição!!!!
Festas felizes!

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